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Por Pr. Silas Rosalino de Queiroz A vigilância quanto à defesa da fé e ações práticas neste sentido devem fazer parte do dia-a-dia da Igreja. Infelizmente há quem se envolva muitos com outros temas, alguns até de relativa importância, mas que roubam o tempo da tarefa primordial do Corpo de Cristo, que é “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). A razão salta evidente do versículo seguinte: “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Jd 4).
Esta batalha pela fé importa na pregação do mesmo Evangelho proclamado por Cristo e os apóstolos. “É a verdade estabelecida e inalterável, comunicada pelo Espírito Santo e incorporada no NT” (BEP p. 1975). Relevante considerar que a palavra “batalhar” no versículo 3 da epístola de Judas, do grego epagonizomai, “descreve a luta que o crente fiel deve travar na defesa da fé. Significa literalmente ‘contender’, ‘estar sob muita pressão’, ou ‘travar uma luta’” (idem). Ocorre que o crescimento das denominações e o surgimento de suas necessárias estruturas têm nos levado, muitas vezes, a perder o foco de nossa batalha. A idealização de projetos alheios à prática evangelística, as contendas internas de todos os níveis, inclusive teológicos, nos fragilizam quanto à defesa da fé. Somente à guisa de exemplo, eis que este não é o foco desta reflexão, registre-se as divergências internas entre alguns profetas (leia-se pregadores) e doutores (leia-se ensinadores e pastores locais), notadamente a partir daqueles, que em nome da popularidade introduzem inovações teológicas prejudiciais ao rebanho. Falta, certamente, o equilíbrio de Antioquia (Atos 13.1). Não há dúvida de que o inimigo do reino de Deus procura se beneficiar do desvio da atenção dos filhos do reino, para semear sua semente ruim, conforme a advertência de Jesus em Mt. 13.24,25, na parábola do joio e do trigo. É desta forma que vêm surgindo, de todos os lados, forte oposição e obstáculos ao crescimento da fé cristã. Uma das formas de ataque são as ações do Estado. Dentre elas, são conhecidas as investidas contra a pregação do Evangelho, tais como, a tentativa de se limitar a construção de templos e a insistência em se criar direitos civis incompatíveis com a moral cristã, com forte impacto sobre as ações da Igreja. É o caso também da pretensa união civil de pessoas do mesmo sexo e a “proteção” ideológica dos homossexuais a pretexto de combate à “homofobia”. Não é demais lembrar, ainda, que chegou a ser aprovado pelo Congresso Nacional, com a edição do Código Civil vigente, o engessamento das igrejas e a ingerência estatal em seu funcionamento, eis que na redação primitiva aprovada (já devidamente alterada) as tais foram consideradas meras associações. Vale a pena prestar mais atenção em um feixe de “políticas públicas” do atual governo, atualmente em estudo, que interferem direta ou indiretamente na liberdade religiosa, com prejuízo direto à fé cristã, especialmente em função da ação evangelística das igrejas pentecostais. Mais recentemente, vimos sancionada pelo presidente da República a Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007. Seu texto em si não traz conteúdo normativo que possa apresentar perigo à fé cristã, eis que se limita a instituir o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa a ser comemorado anualmente em todo o território nacional no dia 21 de janeiro”. O perigo está no significado da data e seus objetivos, os quais estão previstos na Cartilha Diversidade Religiosa e Direitos Humanos, elaborada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O conteúdo da cartilha, aparentemente inofensivo, recebeu o apoio inclusive de igrejas evangélicas, que parecem não ter tido a melhor visão sobre o documento. Sabe-se que a par de defender a “diversidade religiosa”, pretende-se introduzir o ecumenismo e a vedação ao proselitismo de qualquer natureza. Em outras palavras: o objetivo final é impedir toda e qualquer forma de pregação religiosa, a pretexto de se proteger a tal “diversidade”. Não podemos ser ingênuos ao ponto de não perceber que o alvo principal desse pensamento marxista é o segmento evangélico, cuja práxis é a pregação da mensagem salvadora de Cristo. A intenção é impedir que a ordem de Jesus seja cumprida. O Mestre nos deixou imperativamente ordenado: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16.15), mas tal prática, como se infere da cartilha, é tida como intolerância religiosa, desrespeito à diversidade. Em princípio, a Cartilha do Governo parece querer combater somente a violação dos direitos e liberdades religiosos, no sentido protetivo das práticas da religião. Com isso há plena concordância, pois os locais de culto e as atividades religiosas, em público ou em particular, são asseguradas pela Constituição Federal (ex vi do art. 5º, VI, CF/88), o que também está garantido na Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. XVIII). Os evangélicos, aliás, já foram vítimas de atrocidades em virtude da pregação do Evangelho, mas jamais (salvo alguma atitude isolada) usaram de violência para tentar converter alguém à fé cristã genuinamente bíblica, aliás, sabemos nós que o convencimento do homem não é por força, nem por violência, mas pelo Espírito de Deus (Zc 4.6, Jo 16.8). O grande problema é o que está nas entrelinhas do documento, e que se deixa escapar em trechos do próprio texto. Um exemplo disso é a citação de artigo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que trata do ensino religioso e veda qualquer forma de proselitismo, considerando-o um desrespeito à liberdade religiosa. Comentando o artigo, dizem os autores da cartilha: “é obrigatório respeitar a liberdade religiosa do aluno; é proibido tentar convertê-lo para esta ou aquela religião”. Não se pretende aqui questionar o dispositivo da LDB, que tanto pode ser invocado por um pai evangélico como por um espírita, por exemplo. A “proteção”, se assim pode ser dito, ocorre de ambos os lados, embora se saiba que a finalidade intrínseca é se excluir o pensamento cristão. Mesmo porque, qualquer ensino sobre Deus, para a LDB, deve ser a partir da diversidade religiosa, ou, como diz a Cartilha do Governo Federal: “Deus, Alá, Javé, Olorum, O Grande Espírito, A Deusa, Brahman... São muitos os nomes pelos quais os seres humanos chamam o Criador. Mas vontade Dele é uma só: que seus filhos e filhas vivam em Paz, como irmãos e irmãs”. O que salta aos olhos do texto governamental é que “qualquer forma de proselitismo” é considerada desrespeito à liberdade religiosa. O que se conclui, portanto, é que pregar o Evangelho é considerado discriminação, desrespeito, intolerância, ofensa à crença de outrem, etc... A mesma cartilha trata de demonstrar esse pensamento, quando mais à frente cita como exemplo de “intolerância” chamar os seguidores de umbanda e candomblé de “adoradores do diabo”. A intenção final é ou não é impedir a pregação da verdade bíblica e exterminar a fé? Aliás, a pretexto de se estar ofendendo uma raça, tal conceituação poderia render ao pregador a acusação de prática do crime de racismo: “quem discrimina assim o seu semelhante comete, além de intolerância religiosa, outro crime e pecado chamado racismo”, diz a cartilha. E o racismo, diga-se, é crime apenado com reclusão de 1 a 3 anos e multa. É oportuno lembrar que a tal “lei da homofobia” (PLC 122, 2006, atualmente no Senado Federal) pretende alterar exatamente a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/89), colocando no mesmo nível de apenação as tais “discriminações” aos homossexuais. A mesma cartilha, inspirada pelo espírito do anticristo, diz que “a Verdade não pertence a ninguém. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós”. Ou seja: não se poderia mais pregar que Jesus, e somente Ele, é a verdade (Jo 14.6). No mais, o documento, além de considerar intolerância a pregação do evangelho aos índios, defende com veemência o ecumenismo, valendo-se de exemplos que, infelizmente, incluem até mesmo representações do segmento denominado evangélico. Já sabemos que em vários países de outros continentes, especialmente da Ásia e da Europa, tentar converter alguém a outra religião é considerado crime ou, no mínimo, prática anti-social, violadora das liberdades individuais, sendo repelida com dureza pelo Estado ou pelo grupo social. Não é outro espírito que está operando senão o do anticristo, que há muito tempo já atua no mundo (I Jo 4.3). É hora, mais do que nunca, de se batalhar pela fé, pregando a Palavra de Deus com mais graça e poder, mantendo vigilância contra toda a sorte de ameaça à propagação do Evangelho. Aliás, o pensamento anticristão está crescendo diante de nossos olhos diariamente. A Igreja precisa urgentemente concentrar esforços na defesa dos postulados da fé salvífica. Difundir a consciência cristã é tarefa urgente, não somente nos púlpitos, mas em todos os segmentos da sociedade dos quais participamos. Não podemos perder tempo com meros ajuntamentos, shows ou mesmo eventos que pareçam ser tão pentecostais, mas que pouco ou quase nada tenham de ortodoxia cristã pura. Pregar o autêntico Evangelho de Jesus para muitos está fora de moda, mas continua sendo a única forma de sobrevivência da verdadeira Igreja. Além da pregação cristocêntrica em nossas igrejas, devemos nos preparar para debater o tema “diversidade religiosa” em todas as oportunidades que se nos apresentar. Ele já está na agenda oficial. A igreja precisa ser orientada e os líderes dispostos a defender a fé, pois “não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At 4.20). O assunto é palpitante e deve ser discutido com concomitante oração e reflexão na Palavra de Deus. A Igreja de Cristo continua militante, mas certamente ainda não cumpriu sua tarefa totalmente. É tempo de levantar os olhos (Jo 4.35). Judas, o mesmo que adverte pela defesa da fé, nos exorta dizendo: “Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai a vós mesmos na caridade de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, que estão duvidosos; e salvai alguns, arrebatando-os do fogo” (Jd 20-23). Silas Rosalino de Queiroz é pastor auxiliar da AD em Ji-Paraná, RO, jornalista e advogado, assessor jurídico da convenção estadual (CEMADERON) e membro da Comissão de Relações Públicas da CGADB |